A busca pela reversão da ptose tecidual sem a necessidade de intervenções cirúrgicas invasivas impulsionou o desenvolvimento de tecnologias baseadas na convergência de energia. Dentre estas, o Ultrassom Microfocado de Alta Intensidade (HIFU – High-Intensity Focused Ultrasound) consolidou-se como o padrão-ouro para o tratamento da flacidez estrutural. Ao contrário das tecnologias de radiofrequência, que aquecem o tecido por resistência elétrica de forma volumétrica e superficial, o HIFU utiliza as propriedades biofísicas das ondas ultrassônicas para atingir profundidades específicas, chegando ao Sistema Músculo-Aponeurótico Superficial (SMAS).
Este artigo disseca os mecanismos biofísicos da propagação ultrassônica no tegumento, a formação dos pontos de coagulação térmica e as bases farmacológicas do suporte ao paciente para a maximização da neocolagênese.
1. Contextualização Científica: A Biofísica do Feixe Ultrassônico
O ultrassom terapêutico microfocado opera através da conversão de energia mecânica (vibração molecular) em energia térmica. O transdutor contém cristais piezoelétricos que, ao serem estimulados eletricamente, vibram em frequências que variam de 4 MHz a 7 MHz.
Diferente do ultrassom diagnóstico, onde as ondas são emitidas de forma dispersa para gerar imagens, o HIFU utiliza lentes acústicas ou arranjos geométricos para fazer com que essas ondas converjam em um único ponto focal.
Nesse ponto de convergência, ocorre uma concentração massiva de energia, elevando a temperatura local a níveis situados entre 65°C e 75°C em milissegundos, sem dissipação de calor relevante para a superfície da epiderme.
2. Mecanismo de Ação e Bioquímica
O efeito clínico do HIFU é mediado pela criação de milhares de Pontos de Coagulação Térmica (PCT). Cada ponto mede aproximadamente 1 mm³ e é o local onde ocorre a desnaturação proteica controlada.
A Estrutura do SMAS
O SMAS é uma rede fibromuscular que reveste a face, conectando os músculos da mímica à derme sobrejacente. É a camada que os cirurgiões plásticos manipulam em um facelift convencional. O HIFU é a única tecnologia não invasiva capaz de atingir o SMAS de forma focalizada a uma profundidade de 4.5 mm.
Bioquímica da Retração e Remodelação
- Fase de Inflamação (Imediata): O calor causa a quebra das pontes de hidrogênio nas moléculas de colágeno. As fibras de tripla hélice encurtam e espessam, gerando o “efeito lifting imediato”.
- Fase de Proliferação (1 a 6 semanas): O dano térmico libera proteínas de choque térmico (HSP70). Ocorre recrutamento de macrófagos e ativação de fibroblastos para produção de nova matriz extracelular (MEC).
- Fase de Maturação (3 a 6 meses): O colágeno tipo III (imaturo) é substituído pelo colágeno tipo I (estrutural), aumentando a densidade dérmica e a tensão do SMAS.
3. Técnica Correta: Protocolos e Transdutores
A eficácia do tratamento com HIFU depende do rigoroso respeito à anatomia facial e à correta escolha dos transdutores.
- Alvo: SMAS e septos fibrosos da gordura profunda.
- Função: Promove a ancoragem muscular e lifting estrutural.
- Alvo: Derme reticular profunda e interface com tecido adiposo.
- Função: Redução da flacidez dérmica e melhora do contorno.
- Alvo: Derme papilar/superficial.
- Função: Tratamento de rugas finas, poros e textura epidérmica.
Vetorização: Os disparos devem seguir vetores ascendentes. A pressão do transdutor deve ser uniforme para evitar arcos de energia e queimaduras.
4. Cuidados Pré e Pós-Procedimento (Abordagem Farmacêutica)
O sucesso do HIFU não depende apenas da máquina, mas da capacidade metabólica do paciente de responder ao estímulo térmico.
Pré-Procedimento (Otimização do Terreno Biológico)
- Iniciar suplementação de Silício Orgânico e Vitamina C 30 dias antes (cofatores de colágeno).
- Garantir aporte proteico adequado (1.5 g/kg de peso).
- Atenção: Evitar corticosteroides ou AINEs próximos à data, pois a inflamação controlada é o gatilho necessário.
Pós-Procedimento (Manutenção)
- Manter a hidratação da barreira cutânea.
- Suplementação com peptídeos bioativos de colágeno e aminoácidos (Glicina, Prolina, Lisina).
- Proteção solar rigorosa para evitar hipercromias pós-inflamatórias.
5. Riscos e Segurança Clínica
Prevenção de Intercorrências
O mapeamento das “zonas de exclusão” (onde nervos emergem dos forames) é o passo mais crítico. O uso de ultrassom microfocado com imagem em tempo real permite visualizar as camadas teciduais antes do disparo, garantindo que o PCT seja depositado no SMAS e não sobre estruturas nervosas.
- Lesão Nervosa: Disparo acidental sobre nervos (ex: ramo marginal da mandíbula) pode causar parestesia temporária.
- Queimaduras Lineares (Wheals): Causadas por acoplamento inadequado.
- Atrofia Adiposa: Uso de energias muito altas em faces magras pode levar ao aspecto de “rosto esquelético”.
6. Tabela Comparativa de Tecnologias
| Característica | Ultrassom Microfocado (HIFU) | Radiofrequência (Monopolar) | Bioestimuladores Injetáveis |
|---|---|---|---|
| Profundidade | Até 4.5 mm (SMAS) | Até 3.0 mm (Derme) | Variável (Derme/Hipoderme) |
| Mecanismo | Pontos de Coagulação Focal | Aquecimento Volumétrico | Reação Inflamatória Química |
| Temperatura | 65°C a 75°C | 40°C a 45°C | N/A |
| Efeito Imediato | Sim (Contração) | Sim (Edema/Contração) | Não (Mínimo) |
| Downtime | Praticamente zero | Zero | Baixo (Edema/Hematoma) |
| Dor | Moderado a Alto | Baixo a Moderado | Mínimo |
7. FAQ – Perguntas Frequentes
1. O Ultrassom Microfocado (HIFU) dói?
A percepção é subjetiva (picos de calor e “agulhadas”). Analgésicos ou bloqueios podem ser usados.
2. Quantas sessões são necessárias?
Geralmente, uma sessão anual. Resultados finais entre 3 a 6 meses.
3. Qual a diferença entre Microfocado e Macrofocado?
Microfocado: Lifting facial e rugas. Macrofocado: Gordura corporal e flacidez (até 13 mm).
4. Quem tem preenchimento pode fazer?
Sim, respeitando intervalo de 30-60 dias para evitar degradação do ácido hialurônico pelo calor.
5. Contraindicações?
Gestantes, doenças autoimunes ativas, implantes metálicos na área, fios definitivos.
Sobre o Autor:
Prof. Maurizio Pupo é Farmacêutico Ítalo-Brasileiro, graduado pela PUC-Campinas e Especialista em Cosmetologia pela Faculdade Oswaldo Cruz. Com mais de 30 anos de expertise em pesquisa avançada, é Diretor Técnico e de P&D da ADA TINA Italy, onde desenvolve dermocosméticos de altíssima performance. Autor de obras consagradas como o Tratado de Fotoproteção, Antocianinas e precursor dos estudos sobre Luz Azul e Luz Visível, sua trajetória une a tradição científica europeia à prática clínica brasileira. Fundador e Diretor Acadêmico do IPUPO Pós-Graduação, é referência global em Safety Assessment, Toxicologia Cosmética e Biometrologia Cutânea.
IPUPO PÓS-GRADUAÇÃO EM COSMETOLOGIA, ESTÉTICA, NUTRACÊUTICA CLÍNICA E CIÊNCIAS DA PELE.
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