Sinergia Avançada no Melasma Refratário: Ácido Tranexâmico, Cisteamina e Ácido Kójico na Modulação da Melanogênese

A gestão clínica do melasma refratário representa um dos maiores desafios da farmacologia estética contemporânea. Diferente das hiperpigmentações transitórias, o melasma é uma condição crônica, multifatorial e dinâmica, caracterizada por uma disfunção biológica que transcende a simples hiperatividade do melanócito. Atualmente, a ciência compreende que o melasma envolve uma complexa interação entre queratinócitos, fibroblastos senescentes, uma unidade pilossebácea ativa e uma rede vascular exacerbada.

Para o tratamento de casos resistentes às terapias convencionais — muitas vezes saturadas pelo uso prolongado e iatrogênico da hidroquinona — a estratégia terapêutica deve migrar da monoterapia para a sinergia farmacológica multitarget. Este artigo disseca a tríade magistral composta pelo Ácido Tranexâmico, Cisteamina e Ácido Kójico, explorando como essa combinação atua na modulação profunda da melanogênese e na restauração da homeostase cutânea.

Melasma Refratário: Tranexâmico, Cisteamina e Kójico | IPUPO

1. Contextualização: A Complexidade do Melasma

A melanogênese ocorre nos melanossomas via enzima tirosinase. No melasma refratário, o melanócito está em “hipervigilância”, ativado por UV, luz azul e inflamação.

Mediadores como SCF e Endotelina-1 retroalimentam a síntese. A resistência ao tratamento ocorre quando as vias de sinalização dérmica não são silenciadas.

Condição: Melasma Refratário
Causa: Hiperatividade Melanocítica
Gatilhos: UV, Luz Visível, Inflamação
Estratégia: Sinergia de Bloqueio
Tríade de Ouro: Tranexâmico, Cisteamina, Kójico
Alvo: Tirosinase, Plasmina, Vascularização

2. Mecanismos de Ação: A Farmacodinâmica da Sinergia

A eficácia reside no bloqueio de diferentes pontos da via melanogênica.

Ácido Tranexâmico (O Modulador Vascular)

  • Inibição Plasmina: Impede a ligação do plasminogênio, reduzindo ácido araquidônico e prostaglandinas (gatilhos de mancha).
  • Redução Vascular: Diminui o eritema subjacente e o fator VEGF.

Cisteamina (O Novo Padrão-Ouro)

Aminotiol biológico que atua sem a citotoxicidade da hidroquinona.

  • Inibição Tirosinase/Peroxidase: Quelação de ferro e cobre.
  • Aumento de Glutatião: Desvia a síntese para feomelanina (clara).

Ácido Kójico (O Quelante)

Sequestra íons cobre do sítio ativo da tirosinase e possui ação antioxidante.

3. Técnica Correta e Protocolo

Abordagem em camadas: consultório + homecare rigoroso.

Fase de Ataque (Consultório)
  • Drug Delivery: Tranexâmico intradérmico (atinge receptores profundos).
  • Peeling Sinergístico: Kójico (2-4%) + AHAs para permeação.
Fase de Manutenção (Homecare)
  • Técnica Curto Contato: Aplicar Cisteamina à noite, pele seca, por 15-30 min. Lavar.
  • Pós-Lavagem: Sérum com Tranexâmico (3-5%) e Kójico.

4. Tabela Comparativa de Despigmentantes

Ativo Mecanismo Principal Concentração pH Estabilidade Segurança
Ácido Tranexâmico Anti-inflamatório / Vascular 3.0% – 5.0% 5.5 – 7.5 Elevado
Cisteamina Inibição enzimática / Glutatião 5.0% 3.5 – 4.5 Médio (Irritação)
Ácido Kójico Quelação de Cobre 1.0% – 4.0% 3.0 – 5.0 Elevado (Sensibilizante)
Hidroquinona Citotoxicidade 2.0% – 4.0% 3.5 – 4.5 Baixo (Ocronose)

5. Cuidados Pré e Pós-Procedimento

  • Pré-Procedimento: Antioxidantes orais (Polypodium, Picnogenol) 15 dias antes.
  • Pós-Procedimento: Reparação da barreira (Ceramidas) para evitar HPI.
  • Fotoproteção 360°: Obrigatório uso de Óxido de Ferro (proteção luz visível).

6. Riscos e Complicações

Manejo Clínico

O excesso de agressão pode gerar efeito rebote. Em caso de irritação severa, interromper ácidos e usar corticoide tópico de baixa potência + calmantes.

  • Ocronose Exógena: Risco da hidroquinona (evitado com cisteamina).
  • Dermatite de Contato: Cisteamina é agente redutor forte (respeitar tempo de contato).
  • Hipocromia em Confete: Branqueamento excessivo em fototipos altos.

7. FAQ – Perguntas Frequentes

1. Por que o melasma volta?
É uma condição de “memória celular”. Se a inflamação e gatilhos não forem controlados, o pigmento retorna.

2. Cisteamina de dia?
Não. Tem odor forte (enxofre) e é fotossensível. Uso noturno apenas.

3. Vantagem do Tranexâmico injetável?
Entrega o ativo direto na derme papilar, onde a vascularização do melasma é intensa.

4. Grávidas podem usar?
Tranexâmico e Kójico exigem cautela médica. Cisteamina não é recomendada por falta de estudos.

5. Quanto tempo para resultado?
Resultados significativos entre 8 a 12 semanas de uso contínuo.

Referências Bibliográficas (PubMed)

  1. MANSOURI, P. et al. Evaluation of the efficacy of cysteamine 5% cream… Br J Dermatol, 2015.
  2. KIM, M. S. et al. Tranexamic acid for the treatment of melasma… J Am Acad Dermatol, 2018.
  3. SAEEDI, M. et al. Kojic acid as a potential inhibitor of tyrosinase… Biomed Pharmacother, 2019.
  4. NAIDOO, S. et al. The therapeutic potential of cysteamine in refractory melasma… Int J Womens Dermatol, 2021.
  5. PERPER, M. et al. Tranexamic acid in the treatment of melasma… Clin Aesthet Dermatol, 2017.

Rodapé Legal: Conteúdo informativo para profissionais. O uso de despigmentantes potentes exige conhecimento farmacológico. O IPUPO e o Prof. Maurizio Pupo não se responsabilizam por tratamentos sem supervisão. Risco de efeito rebote se mal administrado.

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Sobre o Autor:
Prof. Maurizio Pupo é Farmacêutico Ítalo-Brasileiro, graduado pela PUC-Campinas e Especialista em Cosmetologia pela Faculdade Oswaldo Cruz. Com mais de 30 anos de expertise em pesquisa avançada, é Diretor Técnico e de P&D da ADA TINA Italy, onde desenvolve dermocosméticos de altíssima performance. Autor de obras consagradas como o Tratado de Fotoproteção, Antocianinas e precursor dos estudos sobre Luz Azul e Luz Visível, sua trajetória une a tradição científica europeia à prática clínica brasileira. Fundador e Diretor Acadêmico do IPUPO Pós-Graduação, é referência global em Safety Assessment, Toxicologia Cosmética e Biometrologia Cutânea.

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