A face humana é regida por proporções áureas e equilíbrios volumétricos onde o nariz desempenha o papel de eixo central da harmonia estética. Historicamente, a correção de imperfeições nasais era restrita ao domínio da rinoplastia cirúrgica. Entretanto, o advento da rinomodelação estruturada com preenchedores de ácido hialurônico (AH) revolucionou a cosmiatria avançada. Este procedimento, embora minimamente invasivo, exige do profissional um conhecimento profundo da anatomia topográfica e da reologia dos biomateriais, especificamente o conceito de G-prime ($G’$), para garantir resultados que mimetizem a sustentação osteocartilaginosa sem comprometer a complexa rede vascular da região.
Neste artigo, exploraremos os fundamentos biomecânicos e farmacocinéticos que tornam a rinomodelação um procedimento de alta performance e risco controlado sob a ótica da ciência farmacêutica.
1. Contextualização Científica e a Evolução da Rinomodelação
A rinomodelação não deve ser encarada apenas como o preenchimento de depressões. Do ponto de vista da biofísica tecidual, trata-se de uma modulação de vetores de força. O nariz é uma estrutura tridimensional composta por um arcabouço rígido (ossos nasais), semirrígido (cartilagens alares e triangulares) e tecidos moles (músculos, gordura e pele).
Diferente de outras áreas da face, como as bochechas, o nariz possui uma complacência tecidual limitada. Isso significa que o material injetado sofre uma pressão extrínseca significativa do envelope cutâneo. Por isso, a escolha do ativo não é meramente comercial, mas sim uma decisão baseada em parâmetros reológicos fundamentais para resistir à compressão e manter a projeção ao longo do tempo.
2. O Que É e Mecanismo de Ação: Bioquímica e Física da Sustentação
O mecanismo de ação da rinomodelação estruturada baseia-se na reposição volumétrica estratégica e na alteração do ângulo nasolabial e nasofrontal. O principal protagonista é o Ácido Hialurônico (AH) de alta reticulação (cross-linking).
A Física do G-Prime ($G’$)
O Módulo Elástico ou G-prime ($G’$) define a capacidade de um preenchedor de recuperar sua forma original após ser submetido a uma deformação. Na região nasal, utilizamos preenchedores com alto $G’$.
- Mecanismo de Sustentação: Um gel com alto $G’$ comporta-se como um “pilar” sólido. Ele consegue elevar a ponta nasal (através da técnica de estruturação da columela) e retificar o dorso sem se espalhar lateralmente (spreading).
- Hidratação e Integração: O AH é um polímero de dissacarídeos repetidos (ácido D-glucurônico e N-acetil-D-glucosamina). Através de sua higroscopia, ele mantém a hidratação local, mas sua principal função aqui é mecânica, atuando como uma prótese líquida temporária.
3. Anatomia Aplicada e Áreas de Risco: O Rigor Clínico
A segurança na rinomodelação é ditada pela compreensão da vascularização. O nariz é irrigado por ramos das artérias carótidas interna e externa, com anastomoses cruciais.
A aplicação deve ser prioritariamente supraperióstea ou supracondral (profunda). Neste plano, a densidade vascular é menor, reduzindo o risco de embolização intra-arterial.
- Glabela e Dorso: Risco de oclusão da artéria dorsal do nariz, que possui conexões com a artéria oftálmica.
- Asa Nasal: Região de alta periculosidade devido à artéria angular.
- Ponta Nasal: Espaço exíguo onde o aumento da pressão intersticial pode causar isquemia por compressão externa.
4. Técnica Correta: O Passo a Passo Baseado em Evidências
A técnica estruturada preconizada envolve a abordagem de três pontos principais:
A. Sustentação da Columela
Utiliza-se o conceito de “suporte de columela”. Injeta-se um bolus de AH de alto $G’$ na base da columela, adjacente à espinha nasal anterior. Isso cria uma base rígida que projeta a ponta nasal superiormente, corrigindo o ângulo nasolabial.
B. Retificação do Dorso
A aplicação é feita em retroinjeções profundas ou pequenos bolus sobre os ossos nasais. O objetivo é camuflar a giba óssea, alinhando o ponto mais alto do dorso com a ponta.
C. Refinamento da Ponta (Ponto de Luz)
Um microbolus subcutâneo profundo para definição do domus alar. Aqui, a precisão farmacotécnica é vital para evitar o excesso de volume que poderia “arredondar” o nariz em vez de defini-lo.
5. Comparativo Reológico de Preenchedores
Abaixo, apresentamos uma tabela técnica comparando as propriedades ideais para diferentes áreas faciais versus a rinomodelação:
| Parâmetro Reológico | Preenchedor Labial (Baixo G’) | Preenchedor Volumizador (Médio G’) | Preenchedor Nasal/Estrutural (Alto G’) |
|---|---|---|---|
| Módulo Elástico ($G’$) | Baixo (20 – 100 Pa) | Médio (100 – 400 Pa) | Alto (> 500 Pa) |
| Viscosidade ($\eta$) | Baixa (Fácil espalhamento) | Moderada | Alta (Baixo spreading) |
| Tan $\delta$ (Elasticidade) | Alta (Mais fluido) | Moderada | Baixa (Mais sólido/rígido) |
| Capacidade de Elevação | Mínima | Moderada | Máxima |
| Indicação Típica | Hidratação e contorno labial | Sulco nasogeniano e malar | Rinomodelação e contorno mandibular |
6. Cuidados Pré e Pós-Procedimento
Para otimizar a farmacocinética da cicatrização e minimizar a resposta inflamatória, seguimos protocolos rigorosos:
Pré-Procedimento:
- Suspensão de fármacos antiagregantes plaquetários (Aspirina, Ginkgo Biloba) 7 dias antes.
- Assepsia rigorosa com clorexidina alcoólica 2% para evitar biofilmes bacterianos.
Pós-Procedimento:
- Evitar o uso de óculos pesados por 15 dias (risco de deslocamento do material).
- Não manipular a área ou realizar massagens vigorosas.
- Fotoproteção absoluta: O uso de protetores solares com alta proteção UVA/UVB e proteção ao DNA celular é mandatório para evitar hiperpigmentação pós-inflamatória (HPI).
7. Riscos, Complicações e Intercorrências
A honestidade científica obriga-nos a discutir o lado sombrio do procedimento quando mal executado. A rinomodelação é considerada por muitos especialistas como o preenchimento facial de maior risco.
- Necrose Tecidual: Causada por embolia arterial ou compressão extrínseca. Manifesta-se inicialmente por branqueamento (blanching), seguido de livedo reticularis e dor intensa.
- Amaurose (Cegueira): Embora rara, ocorre pela migração retrógrada do preenchedor da artéria dorsal do nariz para a artéria oftálmica.
- Edema Tardio Intermitente (ETI): Resposta imunológica mediada por linfócitos T ao preenchedor, muitas vezes desencadeada por processos infecciosos distantes (ex: sinusite).
8. Prevenção e Manejo de Intercorrências
O profissional deve estar munido do “Kit de Emergência Hialuronidase”.
- Uso da Hialuronidase: É a enzima antídoto que hidrolisa o AH. Em caso de suspeita de isquemia, deve-se aplicar altas doses (Protocolo de Flood) imediatamente.
- Aspiração Positiva: Embora não seja 100% fidedigna, a aspiração antes de injetar é uma boa prática clínica.
- Uso de Microcânulas: Reduzem significativamente (mas não anulam) o risco de punção intravascular comparadas às agulhas.
9. FAQ – Perguntas Frequentes
1. Quanto tempo dura o resultado da rinomodelação estruturada?
Devido à baixa mobilidade do nariz e ao uso de géis de alto cross-linking, os resultados costumam perdurar de 12 a 18 meses, dependendo do metabolismo do paciente.
2. A rinomodelação pode diminuir o tamanho do nariz?
Mecanicamente, não removemos tecido. No entanto, através da ilusão de óptica e da retificação do dorso, o nariz pode parecer visualmente menor e mais delicado.
3. É possível reverter o procedimento se eu não gostar?
Sim. Por utilizarmos exclusivamente Ácido Hialurônico, a aplicação da enzima hialuronidase pode dissolver o produto completamente em poucas horas.
4. Quais as contraindicações da rinomodelação?
Doenças autoimunes em atividade, infecções no local, gestação, lactação e, principalmente, narizes com múltiplas cirurgias prévias (devido à anatomia vascular alterada).
5. Qual a diferença entre rinoplastia e rinomodelação?
A rinoplastia é cirúrgica, definitiva e corrige desvios funcionais (septo). A rinomodelação é temporária, estética e focada em contorno e projeção.
6. Sinto dor durante o procedimento?
O procedimento é realizado sob anestesia local (tópica ou infiltrativa bloqueadora), tornando-se praticamente indolor para o paciente.
10. Conclusão: O Equilíbrio entre Ciência e Arte
A rinomodelação estruturada é o ápice da farmacologia aplicada à estética. Não basta possuir a técnica manual; é preciso compreender a biofísica dos materiais e a anatomia vascular. Como profissionais da saúde esteta, nosso compromisso primordial é com a segurança e a integridade biológica do paciente. A busca pela beleza nunca deve sobrepor-se à ciência rigorosa.
Sobre o Autor:
Prof. Maurizio Pupo é Farmacêutico Ítalo-Brasileiro, graduado pela PUC-Campinas e Especialista em Cosmetologia pela Faculdade Oswaldo Cruz. Com mais de 30 anos de expertise em pesquisa avançada, é Diretor Técnico e de P&D da ADA TINA Italy, onde desenvolve dermocosméticos de altíssima performance. Autor de obras consagradas como o Tratado de Fotoproteção, Antocianinas e precursor dos estudos sobre Luz Azul e Luz Visível, sua trajetória une a tradição científica europeia à prática clínica brasileira. Fundador e Diretor Acadêmico do IPUPO Pós-Graduação, é referência global em Safety Assessment, Toxicologia Cosmética e Biometrologia Cutânea.
IPUPO PÓS-GRADUAÇÃO EM COSMETOLOGIA, ESTÉTICA, NUTRACÊUTICA CLÍNICA E CIÊNCIAS DA PELE.
Avenida Francisco Glicério, 2331. Salas 03 e 04, Vila Itapura. Campinas – SP. CEP: 13.023-101.
Site oficial: http://www.ipupo.com.br