A fotobiologia cutânea contemporânea atravessou a fronteira da proteção puramente tópica. Se, por décadas, o foco da fotoproteção restringiu-se ao bloqueio físico e químico da radiação ultravioleta (UV) na superfície do estrato córneo, a ciência farmacêutica moderna agora volta seu olhar para o interior da célula. O conceito de fotoproteção oral e o uso de antioxidantes sistêmicos emergem como uma estratégia indispensável no gerenciamento do fotoenvelhecimento, da fotocarcinogênese e da estabilização de hipercromias, como o melasma.
Neste cenário, dois ativos se destacam pela robustez de evidências e especificidade de ação: o extrato de Polypodium leucotomos e a Astaxantina. Mais do que meros “varredores de radicais livres”, estas moléculas atuam na preservação da integridade do DNA celular e na modulação da resposta inflamatória aguda induzida pelo sol.
1. Contextualização Científica: A Insuficiência da Barreira Externa
Apesar do avanço nas tecnologias de filtros solares, a aplicação tópica possui limitações críticas: falhas na cobertura, remoção por suor e incapacidade de neutralizar completamente EROs geradas pela luz visível e infravermelho.
O dano actínico envolve a formação de dímeros de pirimidina de ciclobutano (CPDs) no DNA e a oxidação de bases (8-OHdG). A fotoproteção oral atua elevando a Dose Eritematosa Mínima (DEM) e protegendo a célula de dentro para fora.
2. Mecanismo de Ação e Bioquímica Detalhada
A sinergia entre o extrato botânico e o carotenoide cobre diferentes frentes da cascata de fotodano.
Polypodium leucotomos: O Imunomodulador e Protetor Genômico
- Preservação das Células de Langerhans: Mantém a imunovigilância cutânea, essencial para identificar células malignas nascentes.
- Redução de Fotoprodutos no DNA: Acelera a remoção de danos induzidos por UV, reduzindo a expressão da proteína p53 e a formação de “sunburn cells”.
- Inibição de MMPs: Bloqueia Metaloproteinases (MMP-1 e MMP-3), impedindo a degradação de colágeno.
Astaxantina: O “Rei dos Carotenoides”
Diferente do betacaroteno, a Astaxantina possui uma estrutura polar/apolar única (xantofila).
- Orientação Transmembrana: Posiciona-se transversalmente na bicamada lipídica, protegendo contra peroxidação muito melhor que Vitamina E.
- Quenching de Oxigênio Singlete: Desativação potente de espécies radicalares geradas pela UVA.
- Inibição da Via NF-κB: Reduz citocinas pró-inflamatórias (IL-1, TNF-α), resultando em pele menos reativa.
3. Técnica Correta: Protocolo de Prescrição Farmacêutica
A fotoproteção oral é um tratamento cumulativo. A biodisponibilidade exige tempo e constância.
- 240 mg a 480 mg ao dia.
- Em exposição intensa (verão/viagens), dividir em duas tomadas (manhã e antes da exposição).
- 4 mg a 12 mg ao dia para benefícios dermatológicos.
- Veiculação: Lipofílica. Deve ser prescrita em cápsulas oleosas ou ingerida com refeições gordurosas.
- Iniciar 15 a 30 dias antes da exposição solar intensa para saturação tecidual.
4. Cuidados Pré e Pós-Procedimento Estético
A fotoproteção oral é estratégica para pacientes submetidos a lasers e peelings.
Pré-Procedimento
Iniciar 30 dias antes ajuda a prevenir a hiperpigmentação pós-inflamatória (HPI) e reduz a sensibilidade ao efeito rebote solar.
Pós-Procedimento
A manutenção acelera a recuperação tecidual, modulando a inflamação necessária para o reparo e evitando que ela se torne crônica.
5. Riscos, Complicações e Intercorrências
O Risco da Falsa Segurança
O maior risco clínico é a negligência com a fotoproteção tópica. O paciente deve ser rigorosamente instruído de que o suplemento oral não substitui o filtro solar, mas atua como um “colete à prova de balas” interno.
- Polypodium: Possível desconforto gástrico em sensíveis. Cautela com digitálicos (potencial teórico).
- Astaxantina: Doses acima de 40mg/dia podem causar leve pigmentação alaranjada na pele (reversível e inócua).
6. Tabela Comparativa: Tópica vs. Oral
| Característica | Fotoproteção Tópica (Filtros) | Fotoproteção Oral (Antioxidantes) |
|---|---|---|
| Mecanismo | Reflexão/Absorção na superfície | Neutralização de EROs / Proteção DNA |
| Principais Ativos | Óxido de Zinco, Tinosorb, etc. | P. leucotomos, Astaxantina, Luteína |
| Alcance | Epiderme superficial | Todas as camadas e sistema imune |
| Resistência | Sai com água e atrito | Sistêmico (não removível) |
| Benefício Extra | Maquiagem/Cor | Prevenção de mutações e colágeno |
7. FAQ – Perguntas Frequentes
1. O Polypodium substitui o protetor solar?
Não. É um adjuvante que aumenta a resistência, mas não bloqueia os raios na superfície.
2. A Astaxantina ajuda no Melasma?
Sim, inibe o estresse oxidativo e a inflamação que ativam os melanócitos.
3. Quando começar a tomar antes da praia?
Pelo menos 30 dias antes para garantir distribuição na derme.
4. Grávidas podem tomar?
Apenas sob autorização médica, embora não haja evidência de toxicidade grave.
5. Astaxantina ou Betacaroteno?
Astaxantina é superior na proteção antioxidante e não causa a cor amarelada excessiva do betacaroteno.
Sobre o Autor:
Prof. Maurizio Pupo é Farmacêutico Ítalo-Brasileiro, graduado pela PUC-Campinas e Especialista em Cosmetologia pela Faculdade Oswaldo Cruz. Com mais de 30 anos de expertise em pesquisa avançada, é Diretor Técnico e de P&D da ADA TINA Italy, onde desenvolve dermocosméticos de altíssima performance. Autor de obras consagradas como o Tratado de Fotoproteção, Antocianinas e precursor dos estudos sobre Luz Azul e Luz Visível, sua trajetória une a tradição científica europeia à prática clínica brasileira. Fundador e Diretor Acadêmico do IPUPO Pós-Graduação, é referência global em Safety Assessment, Toxicologia Cosmética e Biometrologia Cutânea.
IPUPO PÓS-GRADUAÇÃO EM COSMETOLOGIA, ESTÉTICA, NUTRACÊUTICA CLÍNICA E CIÊNCIAS DA PELE.
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