Gerenciamento de Intercorrências com Hialuronidase: Farmacodinâmica da Reversão e Protocolos de Segurança em Oclusão Vascular

O uso de preenchedores de ácido hialurônico (AH) na medicina estética e farmacologia estética atingiu níveis de prevalência globais. Embora o AH seja considerado o padrão-ouro devido à sua biocompatibilidade e perfil de segurança, a incidência de eventos adversos — que variam de imperfeições estéticas a emergências vasculares catastróficas — exige que o profissional domine a farmacologia da sua principal contraparte terapêutica: a hialuronidase.

Este artigo analisa profundamente a bioquímica, a farmacocinética e os protocolos clínicos atualizados para a administração da hialuronidase no gerenciamento de complicações.

Hialuronidase: Bioquímica e Protocolos de Emergência | IPUPO

1. Bioquímica e Mecanismo de Ação

A hialuronidase é uma enzima solúvel classificada como uma glicosidase, responsável pela degradação do ácido hialurônico, um glicosaminoglicano (GAG) onipresente na matriz extracelular (MEC).

Estrutura do Ácido Hialurônico e Clivagem Enzimática

O ácido hialurônico é um polímero linear composto por unidades dissacarídicas repetitivas de ácido D-glucurônico e N-acetil-D-glucosamina. Estas unidades são conectadas por ligações glicosídicas alternadas β(1 → 4) e β(1 → 3).

A hialuronidase catalisa especificamente a hidrólise das ligações β(1 → 4). O processo bioquímico resulta em:

  • Fragmentação Molecular: Redução do polímero de alto peso molecular em oligossacarídeos menores.
  • Redução da Viscosidade: O gel de AH reticulado perde sua capacidade de retenção hídrica e suporte estrutural.
  • Aumento da Permeabilidade Tecidual: Ao clivar os GAGs da matriz, a enzima atua como um “fator de difusão”, facilitando a dispersão de fluidos e a subsequente absorção linfática dos resíduos degradados.

Classificação das Hialuronidases

Existem três grupos principais de hialuronidases baseados no seu mecanismo e origem:

  • Hialuronidase de Mamífero (Tipo Testicular): Uma endo-β-N-acetil-hexosaminidase que degrada o AH em tetrassacarídeos. É a forma mais utilizada clinicamente (origem bovina, ovina ou recombinante humana).
  • Hialuronidase de Sanguessuga/Invertebrados: Atua especificamente sobre o AH através de uma endo-β-glucuronidase.
  • Hialuronidase Microbiana (Liases): Atua por eliminação β, produzindo principalmente dissacarídeos insaturados.

2. Farmacodinâmica e Farmacocinética Aplicada

A hialuronidase apresenta uma farmacodinâmica dose-dependente e substrato-específica. No contexto clínico, a interação entre a enzima e o preenchedor injetado é influenciada por variáveis farmacotécnicas do implante.

Fatores de Resistência do Ácido Hialurônico

A eficácia da hidrólise é inversamente proporcional ao grau de reticulação (cross-linking) do preenchedor. Tecnologias que empregam ligações mais densas ou concentrações elevadas de AH requerem uma carga enzimática superior (UTR – Unidades de Turbidez Redutora) e tempo de contato prolongado.

  • Monofásicos Coesivos: Tendem a apresentar uma degradação mais uniforme, porém lenta devido à densidade da rede polimérica.
  • Bifásicos (Particulados): A enzima atua primeiramente na matriz carreadora e posteriormente nas partículas de AH.

Cinética Tecidual

  • Meia-vida Plasmática: Aproximadamente 2 a 5 minutos após administração intravenosa, sendo rapidamente inativada por inibidores séricos.
  • Atividade Local: A ação enzimática no interstício permanece ativa por um período entre 24 a 48 horas. Após este período, a homeostase tecidual reinicia a síntese de AH endógeno através das hialuronano sintases (HAS1, HAS2, HAS3).

3. Indicações Clínicas e Técnicas de Preparo

O uso da hialuronidase divide-se em indicações eletivas e situações de emergência.

Indicações Eletivas

  • Supercorreção: Excesso de volume ou projeção inadequada.
  • Efeito Tyndall: Dispersão da luz (aspecto azulado) devido à aplicação muito superficial de AH de baixa reticulação.
  • Nódulos e Granulomas: Reações inflamatórias ou acúmulo de produto encapsulado.
  • Edema Malar Crônico: Obstrução da drenagem linfática local por compressão persistente do gel.

Protocolo de Diluição Farmacêutica

A hialuronidase é geralmente fornecida em frascos de 2000 UTR ou 3000 UTR em pó liofilizado. A reconstituição deve ser feita com Soro Fisiológico (NaCl 0,9%).

Concentração Desejada Diluente (SF 0,9%) Unidades por 0,1 ml (10 UI na seringa de insulina)
Alta Concentração 2 ml 100 UTR
Concentração Média 4 ml 50 UTR
Concentração Padrão 5 ml 40 UTR
Baixa Concentração 10 ml 20 UTR

Recomendação Técnica: Para refinamento estético, utiliza-se doses baixas (10-20 UTR por ponto). Em casos de isquemia, a concentração deve ser maximizada para reduzir o volume injetado no tecido já edemaciado.

4. Gerenciamento de Oclusão Vascular: Protocolo de Emergência

A oclusão vascular ocorre quando o preenchedor impede o fluxo arterial, seja por embolização direta ou compressão extrínseca severa.

Fisiopatologia da Oclusão

A interrupção do fluxo sanguíneo desencadeia uma cascata de hipóxia celular, acúmulo de lactato e eventual morte tecidual (necrose). Em áreas críticas como a artéria oftálmica, o tempo de reversão é medido em minutos para evitar a amaurose.

Protocolo de Alta Dose Pulsada (High Dose Pulsed Protocol)

Baseado no consenso de DeLorenzi, o manejo deve ser agressivo:

  • Identificação: Diagnóstico imediato por branqueamento, dor intensa e tempo de preenchimento capilar (TPC) > 3 segundos.
  • Injeção Anatômica: Administrar de 500 a 1500 UTR em toda a extensão do trajeto arterial suspeito, não se limitando apenas ao ponto da injeção original.
  • Massagem Mecânica: Realizar massagem vigorosa por 5 a 10 minutos para facilitar a difusão enzimática e a quebra física do êmbolo.
  • Reavaliação: Se após 60 minutos não houver melhora clínica (retorno da cor e TPC normal), repetir a dose. O ciclo deve ser repetido até a reperfusão completa.
  • Adjuvantes: Considerar o uso de Ácido Acetilsalicílico (AAS) para evitar a formação de trombos secundários e compressas mornas para induzir vasodilatação.

5. Cuidados Pré e Pós-Procedimento

Pré-procedimento

  • Avaliação de Alergias: Indagar sobre reações prévias a picadas de insetos (abelhas/vespas), que compartilham hialuronidase no veneno.
  • Teste de Contato (Opcional em Eletivos): Injeção intradérmica de uma pequena quantidade (20 UTR) no antebraço para observar reações urticariformes.

Pós-procedimento

  • Monitoramento: Observar o paciente por 30 minutos pós-aplicação para detectar sinais de hipersensibilidade imediata.
  • Orientações: Informar sobre a possibilidade de edema transitório e flacidez momentânea na região tratada.
  • Intervalo para Re-preenchimento: Aguardar de 15 a 21 dias para que o ambiente tecidual retorne à homeostase e a enzima residual seja totalmente degradada.

6. Riscos, Complicações e Intercorrências

Apesar de ser o “antídoto”, a hialuronidase possui efeitos adversos próprios:

  • Reações de Hipersensibilidade (Tipo I): Podem variar de edema local a choque anafilático. O risco é maior em formulações de origem animal.
  • Eritema e Equimose: Frequentemente associados à técnica de injeção e massagem.
  • Depressão da Matriz: Perda temporária do ácido hialurônico nativo, resultando em uma aparência “vazia” ou “murcha” do tecido.
  • Interação Medicamentosa: Substâncias como furosemida, benzodiazepínicos e anti-histamínicos podem inibir competitivamente a atividade da hialuronidase.

7. Tabela Comparativa: Resistência Enzimática por Tecnologia de AH

Tecnologia de AH Exemplo Comercial Grau de Coesividade Resistência à Hialuronidase
Skinboosters Restylane Vital Baixa Mínima
Bifásico (NASHA) Restylane Moderada Baixa / Média
Monofásico (Vycross) Juvederm Voluma Alta Alta
Matriz XTR Definisse Muito Alta Muito Alta

8. FAQ – Perguntas Frequentes

1. A hialuronidase é segura para uso em consultório?
Sim, desde que o profissional possua o kit de emergência para anafilaxia (adrenalina, corticosteroides) e domine o protocolo de diluição e aplicação.

2. A hialuronidase pode causar danos permanentes à pele?
Não há evidências de danos permanentes. A degradação do AH nativo é temporária e o organismo o repõe fisiologicamente em poucos dias.

3. É possível dissolver apenas uma parte do preenchimento?
Teoricamente sim, através de microdoses e diluições maiores, mas a difusão da enzima é imprevisível, o que pode resultar em uma perda de volume maior do que a planejada.

4. O que fazer se o paciente apresentar alergia durante a reversão de uma oclusão?
A prioridade é a vida do paciente. Trate a anafilaxia conforme protocolos de suporte básico e avançado de vida e, se possível, substitua por hialuronidase humana recombinante em uma unidade hospitalar.

5. Por que o resultado da dissolução demora 24-48h se a enzima age na hora?
A hidrólise molecular é rápida, mas o edema inflamatório causado pela própria intercorrência e pela injeção da enzima leva tempo para ser reabsorvido pelo organismo.

6. Hialuronidase funciona para preenchedores de Polimetilmetacrilato (PMMA)?
Não. A hialuronidase é estritamente específica para o ácido hialurônico e não possui efeito sobre polímeros sintéticos, hidroxiapatita de cálcio ou policaprolactona.

Referências Científicas (PUBMED)

  1. DeLorenzi C. New High Dose Pulsed Hyaluronidase Protocol for Hyaluronic Acid Filler Vascular Adverse Events. Aesthetic Surgery Journal. 2017. Disponível em PubMed
  2. Cavallini M, et al. Consensus opinion on the use of hyaluronidase in aesthetic medicine. Journal of Cosmetic Dermatology. 2013. Disponível em PubMed
  3. King M, et al. Management of Adverse Events following Hyaluronic Acid Filler Injections. The Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology. 2018. Disponível em PubMed
  4. Paap MK, et al. The role of hyaluronidase in the management of soft tissue filler complications. Aesthetic Surgery Journal. 2020. Disponível em PubMed
  5. Buhren BA, et al. Hyaluronidase: from Clinical Applications to Molecular and Cellular Mechanisms. European Journal of Medical Research. 2016. Disponível em PubMed

ADVERTÊNCIA LEGAL
O presente conteúdo possui finalidade exclusivamente informativa e acadêmica para profissionais da saúde devidamente habilitados e inscritos em seus respectivos conselhos de classe. O gerenciamento de intercorrências com hialuronidase exige treinamento prático presencial e competência técnica avançada. O IPUPO PÓS-GRADUAÇÃO e o Prof. Maurizio Pupo não se responsabilizam pelo uso inadequado das informações aqui prestadas, nem por resultados adversos decorrentes da imperícia, imprudência ou negligência de terceiros na aplicação de protocolos clínicos. O tratamento de emergências vasculares deve ser realizado em ambiente que disponha de suporte farmacológico para reações anafiláticas severas.

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Sobre o Autor:
Prof. Maurizio Pupo é Farmacêutico Ítalo-Brasileiro, graduado pela PUC-Campinas e Especialista em Cosmetologia pela Faculdade Oswaldo Cruz. Com mais de 30 anos de expertise em pesquisa avançada, é Diretor Técnico e de P&D da ADA TINA Italy, onde desenvolve dermocosméticos de altíssima performance. Autor de obras consagradas como o Tratado de Fotoproteção, Antocianinas e precursor dos estudos sobre Luz Azul e Luz Visível, sua trajetória une a tradição científica europeia à prática clínica brasileira. Fundador e Diretor Acadêmico do IPUPO Pós-Graduação, é referência global em Safety Assessment, Toxicologia Cosmética e Biometrologia Cutânea.

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